Brasil

93,5% dos criativos preveem mudanças com IA — e agora?

Synthetica Atualizado 10 maio 2026
Profissional criativo usando tablet com ferramentas de inteligência artificial

Lembra daquele momento em Homem-Aranha: Através do Aranhaverso quando o Miles descobre que não existe “jeito certo” de ser herói? Pois a indústria criativa brasileira está vivendo o equivalente existencial disso com a inteligência artificial.

Uma pesquisa da consultoria Deck, feita com 1.555 profissionais de 16 setores criativos, jogou um dado na mesa que todo mundo sentia mas ninguém tinha colocado em número: 93,5% dos entrevistados consideram provável que a IA altere a forma como seu trabalho é realizado nos próximos cinco anos. A questão deixou de ser “se” a IA vai impactar a criatividade. Agora é “como” — e, principalmente, “quem” vai sair ganhando nessa.

O cenário não é de um otimismo cego. Os mesmos dados mostram uma indústria dividida.

66,2% acreditam que a IA tem potencial para melhorar o mercado criativo no médio prazo. Mas 35,5% consideram provável que seus empregos sejam substituídos. Os setores mais apreensivos? Cinema, Rádio e TV (44,9%) e Música (44,3%). Não é difícil entender por quê: são áreas onde a IA generativa já produz trailers, dublagens, roteiros e melodias com qualidade que engana até profissional.

É como se a indústria criativa estivesse num episódio de Black Mirror onde ninguém tem certeza se está no lado de cá ou de lá da tela.

Enquanto uns temem, outros já estão dentro do furacão. A Adobe soltou uma pesquisa global com 16 mil criadores — e o número chama atenção: 86% já usam IA generativa nos fluxos criativos. Mais ainda: 81% dizem que só conseguem produzir certos conteúdos graças a ela.

A Adobe mapeou cinco tendências para 2026 — entre elas, a transparência no uso de IA (deixar claro onde a máquina atuou virou expectativa, não diferencial) e o foco em micro-narrativas (a volta das “novelinhas” em formato de Reels e Shorts). Soma-se a isso a valorização de conteúdo autêntico sobre o hiper-produzido, o uso de momentos cotidianos como gatilho de identificação e a consolidação do YouTube Shorts como canal orgânico. A perfeição técnica já não é o que segura a atenção.

Tem um detalhe que me incomoda e me anima ao mesmo tempo: 62% dos profissionais criativos brasileiros não sabem identificar quais produtos e serviços usam IA no dia a dia. A mesma pesquisa global (Ipsos) mostra que o brasileiro médio também não sabe — mas entre os criativos o percentual é ainda maior. Ou seja, estamos usando ferramentas de IA sem nem perceber. É o equivalente digital de achar que o bolo ficou fofo porque você tem “mão boa” quando na verdade foi o fermento.

No meio desse furacão, o Ministério da Cultura abriu inscrições para o curso gratuito “Inteligência Artificial e Cultura”, pela Escola Solano Trindade (Escult). São 60 horas, EAD, com inscrições até 7 de setembro de 2026. O curso aborda desde conceitos fundamentais até direitos autorais e regulação. A professora Beth Ponte, que também é autora da pesquisa Deck, está à frente do conteúdo. A Unesco recomenda — o MinC está fazendo.

Se eu pudesse resumir o que esses números significam, seria algo como: o valor da criatividade humana em 2026 não está em gerar conteúdo mais rápido ou mais barato. Está na curadoria, na intenção narrativa e no olhar que decide o que vale a pena ser dito. A IA entrega variações infinitas de “mais do mesmo”. O que ela não tem é a capacidade de escolher o que importa.

A pergunta que fica para cada profissional criativo — de quem edita vídeo no quarto a quem dirige um longa — é simples e assustadora: num mundo onde qualquer um pode gerar imagens, músicas e textos com um prompt, o que exatamente faz de você um criador?

A resposta não está na ferramenta. Nunca esteve.

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